Incerteza política pode represar até R$ 62 bilhões em compras no trimestre das eleições, enquanto empresas se preparam para um consumidor mais seletivo
O varejo brasileiro entrou no segundo semestre de 2026 diante de um cenário contraditório. De um lado, o consumo continua sustentando parte importante da atividade econômica. De outro, juros elevados, endividamento e incertezas políticas fazem o consumidor pensar duas vezes antes de assumir compromissos maiores.
Os dados mais recentes do IBGE mostram esse movimento. Em julho, o volume de vendas do comércio varejista caiu 0,8% em relação a junho, mas ainda acumulava alta de 1,8% no ano e 1,6% em 12 meses. No varejo ampliado, que inclui veículos, materiais de construção e atacarejo, houve alta de 0,4% no mês e crescimento de 1,9% no acumulado do ano.
O problema, portanto, não é simplesmente falta de consumo. O comportamento está mudando conforme o tipo de produto, o valor da compra e o grau de confiança do consumidor.
A eleição muda o comportamento de compra
Um levantamento do Ibevar-FIA encontrou um efeito particularmente relevante para 2026. Em eleições presidenciais mais disputadas, quando o resultado permanece incerto até a votação, o consumidor tende a adiar decisões de maior valor.
Segundo o estudo, esse comportamento pode represar até R$ 62 bilhões em compras no trimestre eleitoral. O impacto aparece principalmente em categorias como automóveis, eletrodomésticos e materiais para reforma.
A lógica é relativamente simples. O consumidor continua comprando alimentos, medicamentos, produtos de higiene e outros itens necessários. Entretanto, diante de um cenário econômico incerto, decisões que envolvem financiamento, parcelas longas ou utilização significativa da renda podem ser adiadas.
É nesse ponto que o varejo sente diretamente os efeitos da economia e da política.
O consumidor está mais seletivo
Mesmo quando existe intenção de compra, o consumidor brasileiro está mais atento ao preço e ao benefício recebido.
Essa mudança aumenta a importância das promoções, programas de relacionamento, condições de pagamento e percepção de valor. Para o varejista, vender deixou de depender apenas de atrair fluxo. É necessário transformar a visita em conversão e, principalmente, justificar por que aquele produto merece ocupar uma parcela do orçamento.
No comércio físico, essa disputa acontece também dentro dos shopping centers. O consumidor pode visitar o empreendimento para comprar, mas sua jornada está cada vez mais relacionada a gastronomia, lazer, serviços e experiências.
Pesquisa da Alqia com mais de 26 mil consumidores mostra que compras representam 43% dos motivos de visita aos shopping centers, enquanto lazer e serviços já representam uma parcela significativa da frequência. Somados, lazer, gastronomia e serviços de saúde, bem-estar e conveniência chegam a 57% das respostas.
Isso muda a função do shopping dentro do varejo.
Shopping deixa de ser apenas lugar de compra
A transformação do comportamento ajuda a explicar por que os shopping centers vêm ampliando a presença de restaurantes, entretenimento, serviços, saúde, conveniência e experiências.
O consumidor pode entrar no empreendimento sem necessariamente ter decidido comprar um produto específico. Pode ir ao cinema, encontrar amigos, utilizar um serviço, almoçar ou participar de um evento e, durante essa jornada, ser impactado por uma oportunidade de consumo.
Essa dinâmica aumenta o valor do tempo de permanência e transforma o fluxo em uma variável ainda mais importante para o varejo.
O setor brasileiro de shopping centers fechou 2025 com R$ 200,9 bilhões de faturamento, 658 empreendimentos e 471 milhões de visitantes mensais, segundo a ABRASCE.
O desafio agora é transformar essa audiência em frequência, relacionamento e vendas.
O segundo semestre será uma disputa por atenção
A aproximação do último trimestre aumenta ainda mais a importância dessa estratégia. Black Friday, Natal e outras datas comerciais tradicionalmente concentram uma parcela relevante das vendas e podem funcionar como momentos de recuperação para categorias que tiveram decisões adiadas durante o período eleitoral.
Para as empresas, porém, depender apenas de descontos pode comprometer margens. A disputa tende a acontecer em