Ibovespa sobe 7,7% e ultrapassa 200 mil pontos pela primeira vez no fechamento, enquanto dólar cai e juros futuros recuam diante da mudança nas expectativas dos investidores
O mercado financeiro brasileiro começou a semana com uma das maiores movimentações dos últimos anos. Após a apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, investidores revisaram rapidamente suas expectativas para a economia brasileira, provocando uma forte valorização das ações, queda do dólar e recuo das taxas de juros futuros.
O Ibovespa avançou 7,70% nesta segunda-feira (5), aos 206.911,89 pontos, estabelecendo novo recorde de fechamento. Foi a maior alta diária do índice desde março de 2020. Durante o pregão, o indicador chegou a subir 9,1%, alcançando 209.606 pontos.
A reação ocorreu depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com aproximadamente 47% dos votos contra 45%. O resultado veio diferente de boa parte das pesquisas que antecederam a votação e levou os investidores a recalcular as probabilidades para o segundo turno.
O mercado não compra apenas um resultado, compra expectativas
A forte valorização não deve ser interpretada simplesmente como uma reação política. Para o mercado financeiro, eleições importam principalmente porque podem alterar a trajetória futura das contas públicas, dos juros, dos impostos, das privatizações, dos investimentos e da relação entre governo e setor privado.
O resultado do primeiro turno também veio acompanhado de um desempenho expressivo do partido de Flávio Bolsonaro no Congresso. Segundo a Reuters, o PL ampliou sua representação no Senado de 15 para 28 cadeiras e poderá chegar a 121 deputados na Câmara. Para os investidores, uma base parlamentar mais favorável poderia facilitar a aprovação de medidas econômicas caso Bolsonaro vença o segundo turno.
É essa possibilidade que ajuda a explicar a intensidade do movimento. O mercado começou a precificar um cenário percebido como potencialmente mais favorável ao controle dos gastos públicos e à agenda econômica liberal.
Juros também incorporaram a mudança
A reação não ficou restrita à Bolsa.
As taxas dos contratos de juros futuros de longo prazo caíram mais de 130 pontos-base em determinados vencimentos. O DI para janeiro de 2035 recuou de 14,131% para 12,8%, enquanto o contrato para janeiro de 2028 caiu para 12,665%.
Esse movimento é importante porque os juros futuros funcionam como uma espécie de termômetro das expectativas do mercado para a economia brasileira.
Quando as taxas longas caem, o mercado está sinalizando uma percepção menor de risco ou uma expectativa de condições monetárias e fiscais mais favoráveis no futuro. Empresas dependentes de crédito também podem ser beneficiadas, principalmente setores em que o custo do dinheiro tem forte influência sobre consumo, financiamento e investimentos.
Dólar abaixo de R$ 5 muda o cenário para empresas
O câmbio também reagiu fortemente. O real chegou a se valorizar cerca de 4,1%, levando o dólar para aproximadamente R$ 5, o maior movimento diário de valorização da moeda brasileira em quatro anos.
A valorização do real ajuda empresas brasileiras que possuem dívidas ou custos denominados em dólar e pode reduzir a pressão sobre determinados preços importados. Por outro lado, empresas exportadoras podem enfrentar um efeito menos favorável, porque recebem suas receitas em moeda estrangeira e convertem esses recursos para reais.
A própria Bolsa mostrou essa diferença. Enquanto Magazine Luiza avançou mais de 24%, B3 ganhou 22,63% e BTG Pactual subiu 22,52%, empresas exportadoras como Suzano e Embraer terminaram o dia em queda.
Isso mostra que uma alta do Ibovespa não significa que todas as empresas estejam sendo beneficiadas da mesma maneira. Cada setor reage de acordo com sua exposição a juros, câmbio, crédito, consumo, commodities e cenário fiscal.
O mercado está olhando para 2027
A característica mais importante do movimento desta segunda-feira é que os preços não refletem apenas a economia de hoje. Eles incorporam expectativas para os próximos meses e, principalmente, para o próximo governo.
É por isso que uma eleição pode provocar uma mudança tão grande nos ativos financeiros em apenas algumas horas. Investidores tentam antecipar quais políticas poderão ser implementadas, qual será a composição do Congresso, quem ocupará posições econômicas estratégicas e qual será a capacidade do próximo governo de executar sua agenda.
A própria J.P. Morgan elevou sua recomendação para ações brasileiras para “overweight”, avaliando que o novo cenário político poderia melhorar as perspectivas para o mercado acionário brasileiro.
Isso, entretanto, não significa que o mercado tenha eliminado os riscos. O segundo turno ainda precisa ser disputado, e mudanças nas pesquisas, alianças políticas, propostas econômicas e composição do próximo governo podem provocar novas oscilações.
Bolsa em recorde não significa risco eliminado
A forte alta do Ibovespa representa uma mudança de percepção, mas não uma garantia de que o cenário econômico futuro será positivo.
Mercados financeiros antecipam expectativas e podem mudar de direção rapidamente quando novas informações aparecem. O mesmo investidor que hoje compra ações esperando melhora fiscal pode reduzir sua exposição amanhã caso perceba que determinada agenda econômica perdeu força ou que os riscos aumentaram.
O movimento desta segunda-feira deixa, portanto, uma mensagem importante: o mercado financeiro não reage apenas aos números atuais da economia. Ele reage principalmente àquilo que acredita que poderá acontecer daqui a alguns meses ou anos.
No caso brasileiro, a eleição passou a ocupar o centro dessa precificação. Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, Bolsa, câmbio e juros deverão continuar respondendo às novas informações políticas e econômicas até que o país tenha maior clareza sobre o próximo ciclo de governo.
Produção: Redação Caminho ao Capital