Com quase três em cada dez famílias inadimplentes, especialistas em finanças recomendam organizar o orçamento, negociar diretamente com os credores e priorizar dívidas com juros elevados
O endividamento continua sendo um dos principais desafios financeiros das famílias brasileiras. Mesmo quando os indicadores de inadimplência apresentam alguma melhora, o orçamento doméstico permanece pressionado pelo custo do crédito, pelas despesas essenciais e pela dificuldade de manter uma reserva para imprevistos.
Em setembro de 2026, 29,6% das famílias brasileiras tinham contas em atraso, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O percentual recuou em relação a agosto, quando estava em 29,9%. Entretanto, o comprometimento médio da renda com dívidas aumentou para 29,6%, e o atraso médio nos pagamentos chegou a 65,3 dias. Os dados mostram que uma pequena melhora na inadimplência não significa, necessariamente, que a situação financeira das famílias esteja resolvida.
O problema também está relacionado ao custo do dinheiro. Quando uma fatura de cartão deixa de ser paga integralmente ou um empréstimo passa a ser utilizado para cobrir despesas recorrentes, os juros podem acelerar o crescimento do saldo devedor. Com o tempo, uma dívida inicialmente administrável pode comprometer uma parcela cada vez maior da renda mensal.
Por isso, recuperar o controle financeiro exige mais do que procurar um desconto. O primeiro passo é compreender exatamente quanto se deve, quais compromissos vencem primeiro e quanto dinheiro realmente está disponível para negociar.
O primeiro passo é organizar todas as dívidas
Antes de entrar em contato com bancos, financeiras ou empresas, o consumidor precisa reunir as informações sobre suas pendências. O levantamento deve incluir o valor atualizado, os juros e encargos, o tempo de atraso, as parcelas existentes e as condições oferecidas para quitação.
Também é importante separar as despesas essenciais, como moradia, alimentação, água, energia e transporte, dos gastos que podem ser reduzidos temporariamente.
Com esses números em mãos, fica mais fácil identificar quanto pode ser destinado ao pagamento das dívidas sem comprometer as necessidades básicas. Assumir uma parcela elevada apenas para limpar o nome rapidamente pode ser contraproducente quando não existe dinheiro suficiente para manter os pagamentos seguintes.
Uma estratégia possível é priorizar débitos com juros mais altos, especialmente o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, enquanto se avalia a possibilidade de negociar outras obrigações. A ordem exata, porém, depende das condições contratuais, das consequências do atraso e das necessidades de cada família.
Como renegociar dívidas com mais segurança
O consumidor pode começar procurando diretamente o banco, a financeira ou a empresa responsável pela cobrança. Também é possível consultar plataformas oficiais de renegociação, como o Serasa Limpa Nome, verificando se existe uma oferta disponível para o CPF.
Na negociação, vale comparar pelo menos três informações: o desconto concedido, o valor total que será pago e o tamanho das parcelas. Uma proposta com prestação pequena pode parecer atraente, mas acabar custando mais quando envolve um prazo muito longo.
Antes de aceitar o acordo, peça o valor final por escrito e confirme as condições de pagamento, os encargos, as datas de vencimento e o procedimento para regularização do registro de inadimplência. Utilize somente sites, aplicativos e canais oficiais, evitando links recebidos de desconhecidos e cobranças de taxas antecipadas para liberar supostos descontos.
Também é importante lembrar que não existe garantia de que todas as dívidas terão descontos iguais. As condições dependem do credor, do tipo de contrato, do tempo de atraso e das regras da negociação.
Programas de renegociação podem ajudar
Além das negociações individuais, o consumidor pode verificar se existem programas públicos de renegociação para os quais seja elegível. Em outubro de 2026, o governo federal mantém informações sobre iniciativas do Desenrola Brasil e suas modalidades, mas as regras, os prazos e as instituições participantes podem variar.
Por isso, antes de contar com um benefício, consulte as informações atualizadas nos canais oficiais do Ministério da Fazenda e confirme diretamente com a instituição financeira se a dívida se enquadra nas condições vigentes. Não presuma que um programa anunciado anteriormente continua recebendo adesões ou que qualquer débito seja elegível.
O Serasa Limpa Nome também permite consultar ofertas de empresas participantes por meio de seus canais oficiais. Caso não exista uma proposta disponível, o caminho é procurar diretamente o credor.
O acordo precisa caber no orçamento
Depois de renegociar, começa uma etapa igualmente importante: impedir que a dívida volte a crescer. Para isso, o consumidor precisa acompanhar as despesas, evitar novas compras parceladas desnecessárias e reservar dinheiro para os compromissos já assumidos.
Uma planilha simples pode ajudar a registrar a renda líquida, as despesas essenciais, as parcelas negociadas e o saldo disponível no fim do mês. O acompanhamento deve ser realista: se a prestação só puder ser paga deixando de comprar alimentos ou atrasando outra conta essencial, o acordo precisa ser revisto antes de ser aceito.
Quando as dívidas comprometem praticamente toda a renda, vale buscar orientação financeira gratuita ou apoio de órgãos de defesa do consumidor, como o Procon. Em situações de superendividamento, a legislação brasileira prevê mecanismos de proteção e tratamento das dívidas, observados os requisitos legais de cada caso.
Recuperar o controle financeiro não significa resolver todos os problemas de uma vez. Significa interromper o crescimento desordenado das dívidas, estabelecer prioridades e construir um plano que possa ser cumprido mês após mês.
Em um cenário no qual o orçamento das famílias continua pressionado, a renegociação pode representar um recomeço. O resultado, entretanto, depende de uma decisão fundamental: aceitar somente compromissos compatíveis com a capacidade real de pagamento.
Produção: Redação Caminho ao Capital