Com juros elevados e crescimento mais fraco, gasto das famílias surpreende e sustenta atividade em economias-chave

A economia global entra em um ciclo de desaceleração, marcado por crescimento mais fraco e condições financeiras restritivas, mas com um elemento que desafia previsões pessimistas: a resiliência do consumo. Mesmo diante de inflação persistente e juros em níveis elevados, famílias continuam sustentando a demanda, evitando uma contração mais profunda da atividade econômica.
O cenário atual reflete uma combinação incomum. De um lado, o crescimento global desacelera para algo próximo de 2% a 3% ao ano, abaixo da média histórica de cerca de 3,5% observada nas décadas anteriores à pandemia. De outro, o consumo das famílias segue avançando, especialmente nos Estados Unidos, onde responde por aproximadamente 70% do PIB e continua crescendo em termos reais.
Esse comportamento é parcialmente explicado pelo excesso de poupança acumulado durante a pandemia. Estima-se que, entre 2020 e 2022, famílias em economias desenvolvidas tenham acumulado trilhões de dólares em reservas. Embora parte desse colchão já tenha sido consumida, ele ainda sustenta níveis de gasto acima do esperado.
Outro fator relevante é o mercado de trabalho ainda aquecido. Em várias economias, as taxas de desemprego permanecem próximas de mínimas históricas, o que garante renda e confiança ao consumidor. Nos Estados Unidos e em partes da Europa, o desemprego segue abaixo de 5%, um nível considerado baixo em termos históricos.
No entanto, essa resiliência não é uniforme. Em países emergentes, a combinação de inflação mais volátil, juros elevados e menor poder de compra limita a capacidade de consumo. No Brasil, por exemplo, apesar de alguma recuperação recente, o crédito ainda opera com taxas elevadas, o que restringe o crescimento mais acelerado da demanda.

A manutenção do consumo também tem implicações diretas na política monetária. Bancos centrais enfrentam um dilema: o consumo forte dificulta o controle da inflação, exigindo juros elevados por mais tempo. Ao mesmo tempo, manter condições financeiras restritivas por períodos prolongados aumenta o risco de desaceleração mais intensa no futuro.
Além disso, há sinais de mudança na composição do consumo. Serviços seguem mais resilientes do que bens duráveis, refletindo uma normalização pós-pandemia. Setores como turismo, entretenimento e alimentação fora de casa registram crescimento mais consistente, enquanto categorias ligadas a bens enfrentam maior volatilidade.
Outro ponto de atenção é o aumento do endividamento das famílias. Em várias economias, o uso de crédito tem crescido como forma de sustentar o consumo. Isso cria um risco potencial: caso o mercado de trabalho enfraqueça ou os juros permaneçam elevados por mais tempo, o consumo pode sofrer uma desaceleração mais abrupta.
Do ponto de vista dos mercados, essa combinação de desaceleração com consumo resiliente tem sustentado resultados corporativos melhores do que o esperado. Empresas voltadas ao consumo têm conseguido manter receitas, ainda que sob pressão de margens devido ao aumento de custos.
A atual dinâmica sugere que a economia global passa por um ajuste mais gradual, e não por uma contração abrupta. No entanto, esse equilíbrio é frágil. A sustentação do consumo depende de variáveis sensíveis, como emprego, renda e crédito, que podem se deteriorar rapidamente em um cenário de aperto prolongado.
A resiliência do consumo tem funcionado como um amortecedor da desaceleração global, evitando um cenário mais adverso no curto prazo. No entanto, ela também posterga ajustes necessários e mantém pressões inflacionárias em níveis elevados. O desafio para os próximos trimestres será entender até que ponto esse fôlego é sustentável ou se representa apenas um atraso de um ciclo de desaceleração mais intenso.