Feijão dispara no supermercado e vira principal pressão sobre o varejo alimentar em junho

Economia

Preço médio do produto avançou 8% no mês, de R$ 8,05 para R$ 8,70, enquanto legumes subiram 4,2%; movimento mostra que a inflação dos alimentos continua concentrada em produtos sensíveis ao clima e à oferta.

O feijão voltou a ocupar um lugar de destaque na inflação do supermercado brasileiro. Em junho, o preço médio do produto avançou 8% no país, passando de R$ 8,05 para R$ 8,70, segundo levantamento da Neogrid. A alta foi a maior entre os itens monitorados no varejo alimentar no período, seguida pelos legumes, que subiram 4,2%. O movimento chama atenção porque acontece mesmo em um cenário de desaceleração da inflação geral, revelando uma característica cada vez mais evidente do mercado de alimentos: a pressão de preços pode diminuir no agregado, mas continuar forte em produtos específicos.

O feijão ficou R$ 0,65 mais caro em apenas um mês

A variação parece pequena quando observada em reais, mas ganha outra dimensão quando colocada em perspectiva.

Em apenas um mês, o preço médio do feijão aumentou R$ 0,65 por unidade de preço monitorada, uma alta de 8%.

Para uma família que compra vários quilos do produto ao longo do mês, o impacto se acumula. E o feijão tem uma característica que diferencia o produto de itens considerados supérfluos: ele ocupa espaço recorrente na cesta de alimentação.

A alta, segundo a Neogrid, foi mais intensa nas regiões Centro-Oeste e Sul, justamente áreas relevantes para a produção e circulação do grão. O levantamento aponta que questões de oferta regional e sazonalidade ajudaram a explicar o movimento.

Isso significa que o consumidor pode encontrar diferenças significativas de preço entre cidades e regiões.

Não se trata, portanto, de uma inflação homogênea.

O clima continua sendo um dos grandes formadores de preço

O comportamento do feijão reforça uma característica conhecida do mercado agrícola: produtos in natura ou pouco processados tendem a responder rapidamente às alterações na oferta.

Quando uma determinada região sofre redução de produtividade, atraso de colheita ou mudanças nas condições climáticas, o efeito pode chegar ao supermercado em poucas semanas.

Foi justamente o que ocorreu com outras categorias.

Os legumes subiram 4,2% em junho, passando de R$ 7,93 para R$ 8,26. No Norte, porém, a alta chegou a 11,3%, evidenciando como a mesma categoria pode apresentar comportamentos completamente diferentes dependendo da região.

Essa diferença regional é importante para o varejo.

Um supermercado que trabalha com uma única estratégia nacional de preços pode perder margem em determinadas praças ou deixar de ser competitivo em outras.

Por isso, a inflação dos alimentos está se tornando também um problema de inteligência comercial.

A alta do feijão acontece depois de meses de pressão

O movimento de junho não surgiu do nada.

Dados anteriores da própria Neogrid já mostravam o feijão sob pressão ao longo de 2026. Em março, o preço médio do produto havia avançado 11,1%, passando de R$ 6,76 para R$ 7,51. Naquele momento, o feijão dividia a liderança das altas com o leite.

Em maio, o preço havia recuado para R$ 8,05, mas a alta de junho levou a média para R$ 8,70.

A trajetória mostra que não existe necessariamente uma linha contínua de alta.

O preço pode cair em determinado mês e voltar a subir no seguinte conforme mudam oferta, demanda, clima e condições de comercialização.

É justamente essa volatilidade que dificulta o planejamento tanto das famílias quanto dos supermercados.

O paradoxo: inflação geral caiu, mas alguns alimentos continuam subindo

O dado mais interessante do cenário está na comparação com o IPCA.

Em junho, a inflação oficial brasileira desacelerou de 0,58% em maio para 0,16%. No acumulado de 12 meses, o IPCA ficou em 4,64%, abaixo dos 4,72% registrados nos 12 meses anteriores.

Mais importante: o grupo Alimentação e bebidas recuou 0,24% em junho, depois de uma alta de 1,33% em maio.

À primeira vista, os números parecem contraditórios.

Como o feijão pode subir 8% enquanto alimentação e bebidas registra deflação?

A resposta está na composição do índice.

O IPCA acompanha uma cesta ampla de produtos. Uma queda relevante em determinados alimentos pode compensar a alta de outros. Portanto, uma inflação alimentar negativa não significa que todos os alimentos ficaram mais baratos.

O feijão é justamente um exemplo dessa diferença entre o indicador agregado e a experiência individual.

A inflação média pode cair enquanto o supermercado continua caro para determinados consumidores.

A cesta básica ainda mostra pressão acumulada

Os dados do DIEESE reforçam que o problema não desapareceu com a desaceleração de junho.

Em junho, o custo da cesta básica aumentou em 17 das 27 capitais pesquisadas pelo órgão em parceria com a Conab. Em 10 capitais houve redução.

São Paulo registrou a cesta mais cara, em R$ 965,47, seguida por Cuiabá, com R$ 937,93, e Rio de Janeiro, com R$ 920,94.

No acumulado de 12 meses até junho, o custo da cesta subiu em 26 capitais.

Em Cuiabá, a alta chegou a 14,71%. Em Aracaju, alcançou 13,12%, enquanto Belo Horizonte registrou 12,52%.

A leitura é importante: mesmo com alguma acomodação mensal, o custo estrutural da alimentação continua acima do nível observado um ano antes em grande parte do país.

O feijão pesa mais porque não é um produto qualquer

O comportamento do feijão tem uma particularidade econômica.

Trata-se de um produto relativamente básico, com alta frequência de compra e forte presença no consumo das famílias brasileiras.

Isso reduz a possibilidade de simplesmente eliminar o produto da cesta quando o preço sobe.

O consumidor pode trocar uma marca por outra, procurar promoções ou comprar em outro estabelecimento, mas a substituição completa é mais difícil.

É diferente de categorias em que a compra pode ser adiada.

Por isso, quando o feijão sobe, a percepção de inflação tende a ser maior do que o impacto matemático do produto sobre o índice geral.

É o chamado efeito de percepção da inflação: itens comprados com frequência e considerados essenciais têm influência desproporcional sobre a sensação de perda de poder de compra.

Varejistas precisam reagir com mais precisão

A alta também coloca pressão sobre supermercados.

O varejista precisa decidir quanto do aumento será repassado ao consumidor e quanto será absorvido pela própria margem.

Repassar integralmente pode reduzir o volume vendido.

Absorver tudo pode comprometer a rentabilidade.

A solução tende a passar por estratégias mais sofisticadas de preço, promoção e estoque.

A própria Neogrid destaca que a diferença entre as regiões exige maior precisão na reposição e na precificação.

Na prática, isso significa que o supermercado pode precisar trabalhar com preços e promoções diferentes de acordo com a praça, em vez de tratar o país como um único mercado.

Essa tendência favorece empresas que possuem sistemas de análise de dados capazes de acompanhar preços, demanda e comportamento de compra em tempo quase real.

Outros produtos também ficaram mais caros

Embora o feijão tenha liderado as altas, ele não foi o único produto a pressionar o varejo.

Os dados da Neogrid mostram avanço de 1,8% no papel higiênico, de 1,7% no detergente líquido e de 1,4% na água sanitária durante junho.

A composição é reveladora.

Entre as maiores altas estão produtos agrícolas, mas também itens industrializados e de limpeza.

Isso mostra que o movimento não pode ser explicado exclusivamente pelo clima.

No caso do feijão e dos legumes, a oferta agrícola aparece como fator importante. Já outros produtos estão sujeitos a custos industriais, embalagens, logística, distribuição e estratégia comercial.

A inflação do supermercado, portanto, continua sendo uma combinação de fatores.

O consumidor começa a mudar o comportamento

Quando um produto essencial sobe 8% em apenas um mês, a reação mais provável não é simplesmente aceitar o novo preço.

O consumidor começa a comparar marcas, procurar promoções, migrar para atacarejos e alterar o tamanho das compras.

Essa mudança é particularmente relevante para o varejo porque transforma uma alta de preço em uma questão de volume.

O supermercado pode aumentar o preço médio de determinado produto, mas vender menos unidades.

É um equilíbrio delicado entre preço, volume e margem.

Para a indústria, também existe risco.

Um aumento persistente pode acelerar a substituição por marcas mais baratas ou produtos alternativos, especialmente entre consumidores de menor renda.

A inflação dos alimentos ficou mais regional

Um dos sinais mais importantes dos dados recentes é a regionalização da inflação.

O feijão apresentou maior pressão no Centro-Oeste e Sul.

Os legumes, por outro lado, tiveram aumento de 11,3% no Norte.

E os dados do DIEESE mostram diferenças muito grandes entre as capitais na evolução do custo da cesta básica.

Isso significa que falar simplesmente em “preço dos alimentos no Brasil” pode esconder uma realidade muito mais complexa.

A inflação que uma família enfrenta em Curitiba não é necessariamente a mesma encontrada em Cuiabá, Manaus ou Recife.

Para empresas que operam nacionalmente, essa fragmentação aumenta a importância de dados regionais.

Para o consumidor, aumenta a importância de pesquisar preços.

O que pode acontecer nos próximos meses?

O comportamento futuro do feijão dependerá principalmente da relação entre oferta e demanda.

Se a oferta aumentar e o abastecimento se normalizar, parte da pressão pode ser revertida.

Mas se problemas climáticos ou restrições regionais persistirem, o varejo pode continuar recebendo preços mais elevados.

A história recente mostra que o produto é capaz de apresentar movimentos bastante rápidos.

Em março, o feijão subiu 11,1%. Em junho, avançou novamente 8%.

Isso não significa que uma nova alta esteja contratada.

Significa que o mercado permanece sensível.

E essa sensibilidade é exatamente o que supermercados e consumidores precisam acompanhar.

A inflação desacelerou, mas o supermercado ainda não está barato

O avanço de 8% do feijão em junho é um lembrete de que a inflação não pode ser analisada apenas pelo índice geral.

O IPCA caiu para 0,16% no mês e a inflação de Alimentação e Bebidas ficou negativa em 0,24%. Ainda assim, produtos essenciais como o feijão continuaram subindo com força.

Ao mesmo tempo, o custo da cesta básica aumentou em 17 capitais e acumulou alta em 26 das 27 cidades analisadas pelo DIEESE em 12 meses.

A fotografia que emerge é menos confortável do que o número da inflação geral sugere.

A inflação brasileira está desacelerando, mas isso não significa que todos os preços estejam caindo.

No supermercado, a batalha agora é muito mais localizada. Feijão, legumes e outros produtos sensíveis à oferta podem continuar alternando períodos de alta e queda, enquanto o consumidor tenta proteger o orçamento e o varejista procura equilibrar preço, volume e margem.

No fim, o dado de junho deixa uma mensagem clara para o mercado: a inflação dos alimentos pode ter perdido força no agregado, mas ainda está longe de ser um problema resolvido na gôndola.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *