O novo empreendedor brasileiro tem mais experiência, mais idade e um mercado inteiro pela frente

Empreendedorismo

Avanço do empreendedorismo sênior revela uma transformação silenciosa no mercado brasileiro e abre novas oportunidades para empresas que souberem entender a economia da longevidade

Durante muito tempo, empreender foi associado à juventude, à tecnologia e à disposição para assumir riscos. Essa imagem começa a perder espaço no Brasil.

O país está assistindo ao crescimento de uma geração de empreendedores com mais de 60 anos, formada por pessoas que acumulam experiência profissional, conhecimento de mercado e, em muitos casos, uma capacidade financeira diferente daquela encontrada entre os empreendedores mais jovens.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Dados do Sebrae, elaborados a partir da PNAD Contínua do IBGE, mostram que o Brasil tinha 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais no quarto trimestre de 2025, um crescimento de 59% em relação a 2012.

Não se trata apenas de uma mudança demográfica. É uma mudança econômica.

Formalização pode transformar a renda

Um dos dados mais expressivos do levantamento está relacionado à formalização.

No quarto trimestre de 2025, empreendedores seniores formalizados apresentaram rendimento médio de R$ 7.458, enquanto os informais registraram média de R$ 2.152.

A diferença supera três vezes.

O dado não significa que a formalização, isoladamente, seja responsável por toda a diferença de renda entre os grupos. Existem fatores como escolaridade, atividade econômica, experiência e estrutura empresarial envolvidos. Mas a distância mostra a dimensão econômica que a regularização pode representar para quem empreende depois dos 60 anos.

É uma informação particularmente relevante em um país no qual milhares de pessoas continuam trabalhando ou abrindo negócios mesmo depois de alcançar a idade tradicional de aposentadoria.

Empreender depois dos 60 deixou de ser exceção

Outro dado chama atenção.

Segundo informações apresentadas pelo Sebrae a partir da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor, 16,5% dos empreendedores brasileiros têm 60 anos ou mais. Entre as pessoas de 65 a 74 anos, aproximadamente 63% afirmam empreender por oportunidade, e não por necessidade.

Essa mudança é importante porque quebra uma interpretação antiga sobre o empreendedorismo na maturidade.

O empreendedor sênior não necessariamente está abrindo uma empresa porque perdeu o emprego ou precisa complementar a aposentadoria.

Em muitos casos, existe uma decisão deliberada de continuar ativo, transformar conhecimento em renda ou explorar uma oportunidade identificada ao longo de décadas de experiência.

Experiência começa a ser um ativo econômico

A principal vantagem competitiva desse público talvez não esteja no capital financeiro, mas no capital de experiência.

Um profissional que passou 30 ou 40 anos dentro de determinado mercado acumula conhecimento sobre clientes, fornecedores, negociação, comportamento de consumo e gestão de problemas.

Esse conhecimento pode ser convertido em consultoria, serviços especializados, comércio, franquias, negócios digitais e inúmeras outras modalidades.

Os dados do Sebrae mostram também uma evolução importante na escolaridade desse grupo. Entre 2012 e 2025, a parcela de empreendedores seniores sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 68% para 46%. No mesmo período, aqueles com ensino médio completo ou mais passaram de 24% para 42%.

O empreendedorismo brasileiro está, portanto, ficando mais velho e também mais qualificado.

A economia da longevidade começa a ganhar escala

Existe uma segunda dimensão nessa transformação.

Se existem milhões de pessoas acima dos 60 anos empreendendo, também existe uma população crescente nessa faixa etária consumindo produtos e serviços.

Isso cria uma oportunidade que vai muito além dos negócios administrados por pessoas maduras.

É o nascimento de uma economia voltada à longevidade.

Saúde, turismo, gastronomia, educação, tecnologia, mobilidade, bem-estar, serviços financeiros, entretenimento e varejo estão entre os segmentos que podem ser impactados pela mudança demográfica.

O consumidor acima dos 60 anos já não pode ser tratado como um público homogêneo, dependente ou pouco conectado.

Ele pode ser empreendedor, investidor, consumidor digital, viajante, estudante e cliente de serviços premium.

Para as empresas, entender essa transformação pode ser tão importante quanto acompanhar as mudanças no comportamento das gerações mais jovens.

O varejo também terá de mudar

A transformação demográfica coloca um desafio direto para o varejo.

Durante décadas, muitas estratégias comerciais foram construídas com foco em jovens adultos e famílias em idade produtiva. O envelhecimento da população exige uma ampliação dessa visão.

O consumidor maduro não quer necessariamente produtos “para idosos”.

Ele quer produtos adequados ao seu estilo de vida.

Essa diferença é estratégica.

Uma pessoa de 65 anos pode estar interessada em tecnologia, viagens, moda, gastronomia, experiências culturais, atividade física ou educação. Criar uma comunicação excessivamente baseada na idade pode afastar justamente um consumidor que possui renda, experiência e disposição para consumir.

Para shopping centers, varejistas e marcas, a economia da longevidade pode representar uma nova frente de segmentação.

O empreendedorismo jovem continua importante, mas divide espaço

A expansão do empreendedorismo sênior não significa uma substituição do empreendedorismo jovem.

Os dois movimentos acontecem simultaneamente.

O Brasil possui aproximadamente 4,9 milhões de jovens empreendedores com até 29 anos, segundo levantamento do Sebrae. Esse público apresentou evolução de escolaridade e renda nos últimos anos, mas ainda registra rendimento médio inferior ao observado entre empreendedores adultos e seniores.

O contraste é interessante.

De um lado, jovens chegam ao mercado trazendo familiaridade tecnológica, novas formas de consumo e modelos de negócio digitais.

De outro, empreendedores mais maduros carregam experiência, relacionamento, conhecimento setorial e capital acumulado.

O empreendedorismo brasileiro começa a funcionar, portanto, em múltiplas gerações.

O desafio agora é transformar experiência em inovação

O próximo passo dessa transformação será descobrir como combinar experiência e tecnologia.

A inteligência artificial, por exemplo, já é apontada como prioridade digital por 74% dos empreendedores nascentes brasileiros, segundo dados apresentados pelo Sebrae em setembro. Ao mesmo tempo, segurança e privacidade aparecem como preocupações relevantes para mais da metade dos empreendedores pesquisados.

Essa combinação cria uma oportunidade interessante.

O empreendedor experiente possui conhecimento do mercado. A tecnologia pode aumentar sua produtividade.

Um empresário que conhece profundamente seus clientes, fornecedores e operações pode utilizar inteligência artificial para automatizar atendimento, análise de dados, marketing, planejamento e processos administrativos.

O desafio deixa de ser escolher entre experiência ou tecnologia.

Passa a ser combinar as duas.

Um mercado que ainda está subestimado

O crescimento do empreendedorismo sênior revela uma transformação que ainda recebe menos atenção do que deveria.

São milhões de pessoas acima dos 60 anos participando ativamente da economia, criando negócios, gerando renda e movimentando cadeias de consumo.

Ao mesmo tempo, empresas precisam aprender a atender uma população madura que não quer simplesmente envelhecer. Quer continuar produzindo, consumindo, viajando, aprendendo e empreendendo.

O mercado brasileiro está envelhecendo, mas isso não significa necessariamente um mercado menor.

Significa um mercado diferente.

Para os empreendedores, a oportunidade está em enxergar necessidades que ainda não foram plenamente atendidas. Para as empresas, está em compreender que idade não determina comportamento. E para o varejo, está em transformar longevidade em estratégia comercial.

A grande mudança talvez esteja justamente aí: o empreendedorismo brasileiro está deixando de ser definido apenas pela idade de quem começa um negócio e passando a ser definido pela capacidade de transformar experiência em valor.

Produção: Redação Caminho ao Capital

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