Clubes precisam substituir uma das principais fontes de receita dos últimos anos, abrindo espaço para bancos, varejo, tecnologia, farmacêuticas e outras marcas
O futebol brasileiro entrou em uma nova fase comercial. Depois de anos em que as casas de apostas ocuparam espaço central nos uniformes e nos principais ativos de exposição dos clubes, a saída desse segmento começa a redesenhar o mercado de patrocínios esportivos. A mudança não envolve apenas a troca de uma marca por outra, mas coloca em discussão o valor comercial do futebol, a capacidade dos clubes de gerar receita e a própria estratégia de marketing das empresas.
A dimensão do movimento ajuda a explicar o desafio. Segundo levantamentos publicados recentemente, os patrocínios de empresas de apostas movimentaram aproximadamente R$ 1,14 bilhão entre os clubes da Série A em 2025, equivalente a cerca de 7,9% das receitas das equipes.
Com a retirada das bets, os clubes precisam encontrar empresas capazes de ocupar esses espaços sem comprometer seus orçamentos. O problema é que poucos setores conseguem oferecer, individualmente, valores semelhantes aos praticados pelas casas de apostas nos últimos anos. Por isso, a tendência é de uma disputa maior por propriedades comerciais e de uma negociação mais sofisticada entre clubes e marcas.
O patrocínio deixa de ser apenas exposição
Durante muito tempo, colocar uma marca na camisa era considerado suficiente para garantir visibilidade. O mercado atual, porém, exige mais. Empresas querem transformar o investimento esportivo em relacionamento, experiência, conteúdo e vendas.
Essa mudança abre oportunidades para segmentos como instituições financeiras, varejo, indústria farmacêutica, tecnologia, automóveis, alimentos e bebidas não alcoólicas. O desafio será demonstrar que o futebol pode entregar mais do que audiência: pode gerar conexão direta com consumidores.
A própria movimentação empresarial já mostra esse reposicionamento. A farmacêutica Cimed, que atualmente possui acordos com Palmeiras, Cruzeiro e Seleção Brasileira, negocia novos patrocínios com mais de dez clubes e pretende utilizar o esporte como plataforma para ampliar suas marcas de consumo.
O movimento é significativo porque demonstra uma mudança na lógica do patrocínio. A camisa deixa de ser somente um espaço publicitário e passa a funcionar como uma plataforma de construção de marca.
Clubes terão de provar valor
A nova realidade também aumenta a pressão sobre os departamentos comerciais dos clubes. Com menos empresas dispostas a pagar cifras muito elevadas pelo espaço principal da camisa, será necessário apresentar métricas mais consistentes sobre audiência, engajamento, conversão e retorno sobre investimento.
Nesse cenário, clubes com grandes torcidas continuam tendo vantagem, mas tamanho de torcida sozinho pode não ser suficiente. O mercado tende a valorizar cada vez mais a capacidade de transformar audiência em negócios.
É justamente aí que o futebol se aproxima ainda mais da lógica do marketing. Um clube pode entregar milhões de espectadores durante uma partida, mas uma marca estará mais interessada em saber quantas pessoas interagiram com uma campanha, participaram de uma ativação, utilizaram um benefício ou compraram um produto.
Uma oportunidade para o mercado
A saída das bets cria um problema financeiro imediato para os clubes, mas também abre espaço para uma reorganização do mercado esportivo brasileiro. Empresas que historicamente investiram pouco no futebol podem encontrar agora propriedades comerciais disponíveis e uma audiência altamente engajada.
Para os clubes, o desafio será transformar esse momento em uma oportunidade. Em vez de simplesmente substituir uma marca por outra, será necessário construir projetos comerciais capazes de combinar conteúdo, experiência, dados, relacionamento e geração de negócios.
O futebol brasileiro continua sendo uma das maiores plataformas de atenção do país. A questão agora é saber quais empresas conseguirão ocupar os espaços deixados pelas bets e, principalmente, quais clubes estarão preparados para transformar essa atenção em valor econômico sustentável.
Produção: Redação Caminho ao Capital