Segundo turno coloca frente a frente projetos econômicos diferentes, e decisões sobre gastos públicos, impostos, juros, investimentos e reformas terão impacto direto sobre empresas e consumidores
A eleição presidencial de 2026 não será apenas uma escolha política. Para a economia brasileira, o resultado do segundo turno poderá influenciar a trajetória dos juros, do câmbio, dos investimentos, das contas públicas e da confiança empresarial.
Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro chegam ao segundo turno com propostas e visões diferentes para a condução da economia. O primeiro turno terminou com Flávio em 47,03% dos votos válidos e Lula em 45,16%. A decisão ocorrerá em 25 de outubro.
É importante separar uma proposta de governo de uma política efetivamente implementada. O resultado econômico dependerá também do Congresso, da aprovação das medidas, das condições internacionais e da reação de empresas, consumidores e investidores.
O primeiro impacto acontece antes mesmo da posse
O mercado financeiro não espera janeiro de 2027 para reagir.
Bolsa, dólar e juros futuros incorporam diariamente expectativas sobre o futuro. Foi o que ocorreu após o primeiro turno, quando o Ibovespa registrou forte valorização e o real se apreciou diante do dólar.
Esse mecanismo é importante para entender a relação entre política e economia.
Se investidores acreditam que um futuro governo terá maior controle das despesas e uma trajetória fiscal mais previsível, podem exigir um prêmio de risco menor para financiar o país. Isso pode pressionar os juros futuros para baixo e favorecer ativos de risco.
O movimento também pode ser revertido caso as propostas apresentadas durante a campanha ou as primeiras decisões do governo contrariem as expectativas.
Expectativa é preço. Política econômica é execução.
Contas públicas serão o principal teste
O maior impacto econômico de um novo governo provavelmente passará pela política fiscal.
O Brasil possui uma dívida pública elevada e enfrenta um cenário no qual grande parte do orçamento está comprometida com despesas obrigatórias.
Nesse ambiente, qualquer governo terá de lidar com uma equação complexa: aumentar gastos pode estimular a economia no curto prazo, mas pode elevar a percepção de risco se não houver fonte de financiamento sustentável.
Por outro lado, cortes de despesas e reformas podem melhorar a percepção fiscal, mas também produzir efeitos econômicos no curto prazo.
A questão central será qual despesa será realizada, como será financiada e qual retorno econômico poderá produzir.
Juros podem ser afetados indiretamente
A Presidência da República não define diretamente a Selic. Essa é uma atribuição do Banco Central.
O governo, entretanto, influencia o ambiente em que a política monetária é conduzida.
Uma política fiscal expansionista pode aumentar a demanda e dificultar o controle da inflação. Se houver deterioração das expectativas inflacionárias, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir os juros.
No sentido contrário, uma trajetória fiscal considerada sustentável pode contribuir para reduzir prêmios de risco e expectativas de inflação, criando condições mais favoráveis para uma eventual redução dos juros.
Esse efeito é particularmente importante para empresas.
Juros menores significam crédito potencialmente mais barato, enquanto juros elevados encarecem financiamento e reduzem o valor presente dos investimentos.
Construção civil, varejo, indústria, pequenas empresas e companhias altamente endividadas estão entre os segmentos mais sensíveis a essa dinâmica.
O câmbio também será uma variável estratégica
O presidente não controla diretamente o dólar.
A taxa de câmbio responde a fatores como juros internacionais, fluxo de capitais, exportações, importações, risco fiscal e expectativas.
Mesmo assim, a política econômica influencia a percepção sobre o Brasil.
Uma deterioração das expectativas pode estimular saída de capital e pressionar o real. Uma melhora na percepção de risco pode produzir o efeito contrário.
O câmbio também afeta diretamente a inflação brasileira.
Um dólar mais alto encarece produtos importados, equipamentos, componentes industriais e diversos insumos. Para empresas que exportam, entretanto, uma moeda brasileira mais depreciada pode aumentar a receita em reais.
Por isso, não existe um câmbio que seja positivo para todos os setores simultaneamente.
Impostos e ambiente empresarial
Outro ponto decisivo será a política tributária.
O próximo governo assumirá o processo de implementação da reforma tributária sobre o consumo, que já começou a alterar a estrutura de tributação brasileira.
Além disso, decisões sobre impostos podem modificar margens empresariais, preços, investimentos e consumo.
Para empresas, mais importante do que simplesmente pagar mais ou menos tributos é ter previsibilidade.
Uma companhia consegue planejar uma fábrica, contratar funcionários ou realizar investimentos de longo prazo quando consegue estimar seus custos futuros.
Mudanças frequentes nas regras aumentam a incerteza e podem adiar decisões de investimento.
Investimento público e privado
Existe ainda outro ponto importante: a relação entre investimento público e investimento privado.
Obras de infraestrutura, energia, transporte, saneamento e habitação podem gerar demanda para empresas e trabalhadores. Ao mesmo tempo, um aumento desordenado dos gastos pode pressionar as contas públicas.
O desafio está em transformar gasto em investimento produtivo.
Para o setor privado, o ambiente de negócios depende de segurança jurídica, acesso a crédito, demanda, infraestrutura e previsibilidade.
Por isso, a discussão econômica não se resume a “mais Estado” ou “menos Estado”. A questão é qual Estado, financiado como, fazendo o quê e com qual impacto sobre a produtividade do país.
Dois caminhos econômicos
As propostas econômicas apresentadas pelos candidatos podem ser consultadas na plataforma oficial do Tribunal Superior Eleitoral, que reúne os programas de governo.
No campo econômico, a campanha de Flávio Bolsonaro tem apresentado uma agenda associada a disciplina fiscal, redução de gastos, privatizações e mudanças tributárias. A execução dessas medidas dependeria, entre outros fatores, da aprovação de reformas no Congresso e da capacidade de reorganizar despesas obrigatórias.
Já a campanha de Lula combina políticas sociais, investimentos públicos e uma agenda de desenvolvimento, enquanto também busca apresentar compromissos com a sustentabilidade fiscal e a continuidade de políticas voltadas ao crescimento.
As diferenças entre os projetos precisam ser avaliadas considerando não apenas as promessas, mas também fontes de financiamento, impacto sobre as contas públicas, necessidade de aprovação legislativa e capacidade de execução.
O que pode mudar para empresas e consumidores?
Os efeitos das decisões econômicas aparecem diretamente no cotidiano.
Inflação influencia o poder de compra.
Juros afetam financiamento, cartão, empréstimos e crédito imobiliário.
Câmbio influencia preços de produtos importados.
Emprego depende, entre outros fatores, do ritmo de crescimento da economia.
Impostos alteram preços e custos empresariais.
Investimentos públicos podem melhorar infraestrutura e gerar atividade em determinados setores.
Por isso, política econômica não é um assunto restrito ao mercado financeiro.
Ela chega ao supermercado, ao financiamento de um imóvel, à decisão de uma empresa contratar funcionários e ao custo de capital de um empreendedor.
O desafio a partir de 2027
O próximo governo encontrará uma economia com desafios conhecidos: dívida pública elevada, necessidade de investimento, pressão por gastos sociais, busca por crescimento, inflação e necessidade de elevar a produtividade.
A capacidade de equilibrar essas variáveis será determinante.
O presidente eleito terá influência sobre a política econômica, mas não terá controle absoluto sobre seus resultados. Congresso, Banco Central, governos estaduais, Judiciário, empresas, consumidores e cenário internacional também participarão dessa equação.
A eleição define o comando do Executivo. A economia, porém, será resultado da combinação entre decisões políticas, condições de mercado e capacidade de implementação.
Produção: Redação Caminho ao Capital
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, Banco Central do Brasil, Agência Brasil e Reuters.