Novo prazo para opção vai até 15 de outubro, enquanto empresas do Simples terão até 30 de outubro para decidir sobre o recolhimento regular do IBS e da CBS; mudança exige planejamento e não apenas atenção ao calendário
O pequeno empreendedor brasileiro entrou em uma fase em que administrar uma empresa vai exigir mais do que vender, contratar e controlar o caixa. A transição para o novo sistema tributário começa a transformar decisões que antes pareciam exclusivamente contábeis em escolhas estratégicas para o negócio.
A principal mudança anunciada nesta semana envolve o Simples Nacional para 2027. O Comitê Gestor do Simples Nacional prorrogou o prazo para que microempresas e empresas de pequeno porte façam a opção pelo regime. O período, que inicialmente terminaria em 30 de setembro, agora vai até 15 de outubro de 2026.
Ao mesmo tempo, empresas que já estão no Simples e desejarem recolher IBS e CBS pelo regime regular terão até 30 de outubro para fazer essa escolha.
Pode parecer apenas uma alteração de calendário.
Não é.
A decisão pode mudar a estratégia financeira da empresa
O Simples Nacional foi criado para simplificar a tributação de micro e pequenas empresas, concentrando diferentes tributos em uma sistemática única de recolhimento.
Com a Reforma Tributária do Consumo, porém, a estrutura passa por mudanças.
O IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, e a CBS, Contribuição sobre Bens e Serviços, entram no novo modelo tributário e passam a exigir decisões que podem afetar a maneira como determinadas empresas calculam seus custos, formam preços e se relacionam com fornecedores e clientes.
A própria Receita Federal alerta que existem duas decisões diferentes que não devem ser confundidas: optar pelo Simples Nacional e escolher o regime regular de IBS e CBS.
Essa distinção será fundamental para o empreendedor.
O prazo ficou maior, mas a decisão continua urgente
A prorrogação até 15 de outubro dá mais tempo para as empresas analisarem sua situação.
Mas tempo adicional não significa que a decisão possa ser deixada para a última hora.
De acordo com o Ministério da Fazenda, empresas que fizerem a opção pelo Simples Nacional entre 1º de setembro e 15 de outubro poderão ter o regime aplicado a partir de 1º de janeiro de 2027. Caso existam pendências que impeçam a opção, a regularização poderá ser feita até 30 de outubro.
Existe ainda uma janela para cancelamento da opção, entre 3 de novembro e 20 de dezembro de 2026.
O calendário, portanto, ficou mais flexível, mas também mais complexo.
O empreendedor precisa olhar além da alíquota
Uma das armadilhas mais comuns na gestão de pequenos negócios é analisar tributação apenas pela pergunta: “quanto vou pagar de imposto?”
Essa pergunta é importante, mas insuficiente.
O empresário também precisa avaliar quem compra da empresa, quem fornece para ela, como funciona sua cadeia de custos e se seus clientes são pessoas físicas ou jurídicas.
Isso porque a possibilidade de apropriação de créditos tributários pode alterar a lógica econômica de determinadas operações.
O próprio Ministério da Fazenda explica que o regime regular de IBS e CBS poderá ser particularmente relevante para empresas que vendem insumos ou prestam serviços para outras empresas, justamente pela dinâmica dos créditos.
Isso significa que duas empresas com faturamento semelhante podem tomar decisões diferentes.
O número de pedidos mostra o tamanho da mudança
A quantidade de empresas que já estão tomando decisões sobre o novo cenário também chama atenção.
Em 25 de setembro, a Receita Federal registrava 328.432 solicitações de opção pelo Simples Nacional e 447.716 solicitações pelo regime regular do IBS e da CBS.
O número mostra que a discussão deixou de ser uma questão futura.
Ela já está acontecendo dentro das empresas.
E quanto maior o número de empresários que precisam tomar uma decisão ao mesmo tempo, maior a importância de informação clara e planejamento.
Pequeno negócio não pode administrar a Reforma Tributária pelo improviso
A transição tributária representa um desafio especialmente grande para pequenas empresas.
Uma grande companhia possui departamentos fiscais, contadores internos, consultorias e equipes jurídicas.
O pequeno empresário muitas vezes acumula funções.
É vendedor pela manhã, gestor à tarde, financeiro no fim do dia e responsável pelo relacionamento com fornecedores à noite.
Nesse cenário, mudanças tributárias podem parecer excessivamente técnicas.
Mas justamente por isso o empreendedor precisa transformar o assunto em uma rotina de gestão.
Não é necessário dominar toda a legislação tributária.
É necessário fazer as perguntas certas ao contador.
Cinco perguntas que o empreendedor deveria fazer agora
Antes de tomar qualquer decisão para 2027, o empresário pode começar por uma conversa objetiva com seu contador:
1. Minha empresa continuará no Simples Nacional em 2027?
2. Existem débitos ou pendências que podem impedir minha opção?
3. Qual é o impacto do IBS e da CBS no meu modelo de negócio?
4. Meus principais clientes são consumidores finais ou outras empresas?
5. O regime regular pode alterar minha capacidade de gerar ou aproveitar créditos tributários?
A resposta não será igual para todos.
E esse é justamente o ponto central da mudança.
O empreendedorismo brasileiro continua crescendo
A discussão tributária acontece em um momento no qual o empreendedorismo formal brasileiro apresenta números expressivos.
Segundo levantamento do Sebrae, o país abriu 3,93 milhões de pequenos negócios entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 14,3% em relação ao mesmo período de 2025. Os MEIs representaram 77,3% dessas novas empresas.
O setor de serviços respondeu por 63,9% das aberturas de pequenos negócios em agosto, enquanto o comércio representou 20,5%.
Os números mostram que existe disposição para empreender.
O desafio agora é transformar abertura de CNPJ em empresa sustentável.
Abrir uma empresa é relativamente simples.
Construir um negócio que gere lucro, mantenha clientes, pague impostos corretamente e sobreviva às mudanças econômicas é uma tarefa muito mais complexa.
O novo empreendedor precisa entender de gestão
Durante muito tempo, o empreendedor brasileiro foi associado principalmente à capacidade de vender.
Hoje, isso não é suficiente.
O empresário precisa compreender margem, fluxo de caixa, custo de aquisição de clientes, estoque, capital de giro, crédito, tributação e tecnologia.
A Reforma Tributária acrescenta mais uma camada a essa realidade.
A empresa que não conhecer sua própria operação pode acabar tomando decisões tributárias baseadas apenas em uma comparação superficial de alíquotas.
E uma decisão aparentemente barata pode se tornar cara quando analisada dentro de toda a cadeia de negócios.
A opinião da Redação Caminho ao Capital
O principal risco para o pequeno empreendedor não é a mudança da regra. É tomar uma decisão sem entender como ela afeta o próprio negócio.
A prorrogação do prazo para o Simples Nacional deve ser vista como uma oportunidade para analisar a empresa com mais calma, e não como motivo para adiar novamente a decisão.
O empresário precisa sair da lógica de “meu contador resolve” e entrar em uma relação mais estratégica com a contabilidade.
O contador possui o conhecimento técnico.
Mas quem conhece o negócio é o empreendedor.
É ele quem sabe quais são seus principais clientes, quais produtos possuem maior margem, quais fornecedores são mais importantes, quanto tempo leva para receber uma venda e onde estão seus maiores custos.
Essa combinação entre conhecimento contábil e conhecimento empresarial será fundamental.
A Reforma Tributária pode criar oportunidades, mas também pode gerar custos diferentes dependendo do modelo de negócio.
Por isso, não existe uma escolha universalmente melhor para todas as empresas.
Existe a escolha que faz sentido para cada operação.
E essa talvez seja a principal mudança de mentalidade que o empreendedor brasileiro precise adotar.
O prazo mudou. A responsabilidade continua
O novo prazo até 15 de outubro reduz a pressão imediata sobre milhares de empresas, mas não elimina a necessidade de planejamento.
Para quem precisa regularizar pendências, o limite é 30 de outubro. Para quem pretende avaliar o regime regular de IBS e CBS, o mesmo prazo deve ser observado.
O calendário tributário de 2027 começa, portanto, ainda em 2026.
Para o pequeno empresário, essa pode ser uma das decisões administrativas mais importantes do último trimestre.
Não porque a mudança determine automaticamente quem ganhará ou perderá dinheiro.
Mas porque a empresa que conhece seus números terá mais condições de escolher.
E, em um ambiente de transformação tributária, informação pode ser tão importante quanto capital.
Produção: Redação Caminho ao Capital