A fake news sobre Nossa Senhora Aparecida e Flávio Bolsonaro: como uma proposta de 2007 voltou ao centro da eleição de 2026

Política

Informação falsa sobre uma suposta intenção de retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida ganhou as redes na reta final da campanha, provocou disputa judicial e expôs os riscos da desinformação eleitoral

A reta final da eleição presidencial de 2026 ganhou um novo capítulo que mistura política, religião, redes sociais, jornalismo e Justiça. Uma informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) se espalhou pelas redes sociais nos últimos dias e transformou uma proposta legislativa apresentada há quase duas décadas em um dos assuntos mais comentados da campanha.

A narrativa que circulou afirmava que Flávio Bolsonaro teria a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil caso fosse eleito presidente.

Não há registro de uma proposta atual de Flávio Bolsonaro nesse sentido.

O projeto utilizado como origem da narrativa existe, mas foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victorio Galli e arquivado pela Câmara dos Deputados em 22 de agosto de 2008. O parlamentar propunha substituir, na legislação, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

A diferença entre esses dois fatos é justamente o centro da controvérsia.

Um projeto de 2007 voltou quase 20 anos depois

O Projeto de Lei 2.623/2007 foi apresentado por Victorio Galli, então deputado pelo Mato Grosso.

A proposta alterava a Lei nº 6.802/1980, responsável por estabelecer o feriado nacional de 12 de outubro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. O texto pretendia modificar a referência à santa na legislação para restringir o título de padroeira aos brasileiros católicos apostólicos romanos.

O projeto, entretanto, não avançou.

Segundo a própria Câmara dos Deputados, a proposta foi rejeitada quanto ao mérito e posteriormente arquivada em 2008. Em 2018, a Câmara já havia publicado um esclarecimento justamente porque conteúdos falsos afirmavam que o projeto ainda estava em tramitação.

É esse projeto antigo que voltou a circular durante a campanha presidencial de 2026.

A diferença fundamental é que uma proposta arquivada de outro parlamentar não constitui, por si só, evidência de que Flávio Bolsonaro tenha atualmente uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Como o nome de Flávio Bolsonaro entrou na história

A controvérsia ganhou força depois de comentários feitos na GloboNews sobre uma suposta movimentação envolvendo grupos religiosos.

Posteriormente, a emissora fez uma retratação e reconheceu que a informação mencionada havia se baseado em um projeto que estava arquivado havia quase duas décadas. A partir daí, o assunto ganhou velocidade nas redes sociais e passou a ser associado diretamente a Flávio Bolsonaro.

A campanha do candidato negou a informação e acionou a Justiça Eleitoral.

A partir daquele momento, o episódio deixou de ser apenas uma discussão nas redes sociais e passou a envolver também o Judiciário.

TSE determinou retirada de publicações

Na sexta-feira, 25 de setembro, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que plataformas retirassem publicações que associassem Flávio Bolsonaro ou seus familiares à intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Na decisão provisória, Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que o candidato ou seus familiares teriam proposto, articulado, apoiado ou pretendido realizar essa mudança.

Segundo informações da Agência Brasil, a defesa de Flávio havia solicitado a remoção de mais de 1,5 mil publicações relacionadas ao assunto.

O caso ganhou uma dimensão ainda maior porque uma das publicações atingidas pela decisão havia alcançado, segundo informações apresentadas no processo, mais de 195 mil visualizações, 2 mil compartilhamentos e 11 mil curtidas em poucas horas.

É justamente nesse ponto que fica evidente o poder de uma informação falsa durante uma campanha eleitoral.

Uma publicação pode atingir centenas de milhares de pessoas antes que uma correção consiga alcançar o mesmo público.

Depois, Flávio Dino derrubou a decisão

No domingo, 27 de setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, derrubou a decisão de Mendonça que havia determinado a retirada de uma publicação feita pelo humorista Antonio Tabet.

Dino considerou que o conteúdo analisado não apresentava grau suficiente de certeza sobre uma ilegalidade para justificar uma medida tão restritiva à liberdade de expressão e religiosa. A publicação, segundo a Agência Brasil, não citava nominalmente Flávio Bolsonaro ou seus familiares.

A decisão não significa que o projeto de 2007 tenha sido retomado ou que a acusação contra Flávio Bolsonaro tenha sido comprovada.

O que estava em discussão naquele processo era, principalmente, o limite entre uma manifestação política e a necessidade de retirar determinado conteúdo das redes sociais.

Essa distinção é importante para entender o caso.

CNBB nega envolvimento

A crise ganhou outro componente quando Flávio Bolsonaro afirmou, durante uma carreata em Goiânia, que integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) teriam colaborado com a disseminação da informação falsa.

A CNBB negou a acusação.

Em nota, a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral e declarou não integrar estruturas político-partidárias.

Portanto, a alegação de envolvimento da CNBB deve ser tratada como uma acusação feita pelo candidato, não como um fato comprovado.

Essa é uma diferença fundamental em qualquer cobertura jornalística.

Por que essa fake news ganhou tanta força?

A resposta está na combinação de três elementos particularmente sensíveis: religião, identidade e eleição.

Nossa Senhora Aparecida ocupa um espaço histórico e cultural relevante no Brasil. A imagem foi encontrada em 1717 e a santa foi oficialmente proclamada Padroeira do Brasil em 1930. O feriado nacional de 12 de outubro foi instituído posteriormente, em 1980.

Associar um candidato presidencial à possibilidade de retirar esse título possui, portanto, um forte potencial emocional.

E esse é justamente o mecanismo que torna determinadas informações falsas tão eficientes.

A desinformação não precisa apresentar um argumento complexo.

Ela precisa provocar uma reação.

O perigo está na velocidade

Uma pessoa pode receber uma mensagem em um grupo de família, visualizar uma publicação no Instagram ou assistir a um vídeo curto e compartilhar o conteúdo em poucos segundos.

A verificação, entretanto, exige muito mais tempo.

É necessário encontrar o projeto original, consultar a Câmara dos Deputados, verificar a situação legislativa, procurar declarações do candidato e comparar as informações com veículos jornalísticos independentes.

No caso de Nossa Senhora Aparecida, esse processo revela uma informação objetiva: o projeto existe, mas é de 2007, foi apresentado por outro parlamentar e está arquivado desde 2008.

A transformação desse projeto antigo em uma suposta proposta atual de Flávio Bolsonaro é que caracteriza o problema de desinformação identificado por diferentes veículos que analisaram o episódio.

A opinião da Redação Caminho ao Capital

Existe uma lição importante nessa história que ultrapassa a disputa entre candidatos.

A política brasileira precisa aprender a conviver com o debate duro sem transformar informação não verificada em arma eleitoral.

Críticas, opiniões, sátiras e divergências fazem parte de uma democracia.

Uma informação factual, porém, precisa ser sustentada por fatos.

Se alguém afirma que determinado candidato apresentou um projeto, é possível consultar o Congresso. Se afirma que uma proposta está em tramitação, é possível verificar sua situação legislativa. Se afirma que um político fez determinada declaração, existe a possibilidade de procurar o vídeo ou a fonte original.

A tecnologia tornou a publicação muito fácil. A responsabilidade de verificar continua sendo difícil.

Na avaliação desta Redação, esse é o ponto mais preocupante do episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

Não é necessário escolher um lado político para reconhecer que um projeto de 2007 arquivado em 2008 não pode ser apresentado como uma proposta atual sem que isso seja claramente explicado ao leitor.

Da mesma forma, uma acusação contra uma instituição, partido ou candidato não deve ser apresentada como fato quando ainda não existe comprovação independente.

O problema não é apenas eleitoral.

É também jornalístico.

Quando uma informação falsa viraliza, mesmo depois de desmentida, parte do dano já pode ter acontecido. A correção dificilmente alcança exatamente as mesmas pessoas que receberam a primeira versão.

Por isso, em períodos eleitorais, a responsabilidade de quem publica é ainda maior.

A fonte original continua sendo o melhor antídoto

O episódio deixa uma regra simples para o eleitor.

Antes de compartilhar uma informação política, é necessário procurar a fonte original.

No caso do projeto sobre Nossa Senhora Aparecida, a própria Câmara dos Deputados oferece o registro histórico da proposição. O documento mostra o autor, a data de apresentação e a situação do projeto.

A Justiça Eleitoral também recomenda que o cidadão observe a fonte, leia além do título, confira a data, procure outras reportagens sobre o mesmo assunto e verifique a autoria do conteúdo.

Parece básico.

Mas, na velocidade das redes sociais, o básico pode ser exatamente o que evita que uma mentira se transforme em verdade para milhares de pessoas.

O caso ainda não terminou

A disputa jurídica continua produzindo novos desdobramentos. Nesta segunda-feira, 28 de setembro, a defesa de Flávio Bolsonaro pediu ao ministro Luiz Fux, do STF, a suspensão da decisão de Flávio Dino que liberou publicações relacionadas ao episódio. Dino, por sua vez, indicou que pretende submeter a questão ao plenário da Corte.

Ao mesmo tempo, a campanha eleitoral entra em sua última semana antes do primeiro turno.

Isso significa que novos conteúdos, verdadeiros ou falsos, provavelmente continuarão circulando em velocidade elevada.

O episódio de Nossa Senhora Aparecida demonstra que a disputa eleitoral de 2026 não acontece apenas nos palanques, debates e programas de televisão.

Ela também acontece na tela do celular.

E, nesse ambiente, a capacidade de separar fato, opinião, acusação, sátira e desinformação pode ser tão importante quanto a própria informação que chega ao eleitor.

Produção: Redação Caminho ao Capital

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