Com diferença de apenas 1,87 ponto percentual no primeiro turno, Lula e Flávio Bolsonaro entram em uma nova fase da disputa, na qual conquistar eleitores de outras candidaturas será tão importante quanto manter suas próprias bases
O segundo turno da eleição presidencial de 2026 começa com uma característica que ajuda a explicar a dimensão da disputa: a diferença entre os dois candidatos foi de apenas 1,87 ponto percentual no primeiro turno. Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou 45,16%. A votação definitiva ocorrerá em 25 de outubro.
O resultado produz uma situação diferente daquela observada em eleições nas quais um candidato termina a primeira etapa com uma vantagem ampla. Aqui, os dois chegam ao segundo turno com bases eleitorais consolidadas e precisam disputar, principalmente, os eleitores que ficaram fora dos dois polos.
A eleição, portanto, muda de natureza.
No primeiro turno, a estratégia é ampliar o número de candidatos e consolidar uma posição entre várias alternativas. No segundo, o espaço político fica reduzido a duas opções. O desafio passa a ser transformar preferência em maioria.
O eleitor que ficou no meio da disputa
Uma das variáveis mais importantes está nos votos recebidos pelos candidatos que não chegaram ao segundo turno.
Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema somaram milhões de votos. A questão agora não é simplesmente saber para onde esses votos irão, mas quantos eleitores efetivamente mudarão de escolha, quantos votarão em branco ou nulo e quantos poderão deixar de comparecer às urnas.
Pesquisas realizadas antes do primeiro turno já indicavam que a transferência não seria automática.
Em levantamento do Datafolha, eleitores das candidaturas alternativas apresentavam comportamentos diferentes em uma eventual segunda etapa. Entre os apoiadores de Zema, Renan, Caiado e Cury, Flávio aparecia numericamente à frente de Lula, mas o levantamento também mostrava uma parcela relevante de eleitores sem intenção definida de apoiar nenhum dos dois.
Esse grupo pode ser decisivo não necessariamente porque representa um bloco político homogêneo, mas justamente porque não está totalmente identificado com nenhum dos dois campos.
A eleição também será uma disputa por alianças
O segundo turno começou a produzir rapidamente uma nova rodada de negociações.
Flávio Bolsonaro já conseguiu apoios de candidatos e grupos políticos em diferentes estados. Lula também possui aliados disputando governos estaduais. O levantamento do UOL mostra que Flávio conta com palanques em cinco estados onde haverá segundo turno para governador, enquanto Lula possui aliados em quatro.
Mas há uma diferença importante entre apoio político e transferência efetiva de votos.
Um governador, senador ou dirigente partidário pode declarar apoio a determinado candidato, mas isso não significa que todos os seus eleitores seguirão automaticamente a orientação.
O segundo turno coloca justamente esse fenômeno à prova: até que ponto a estrutura política consegue converter apoio institucional em comportamento eleitoral?
O mapa regional continua sendo fundamental
O primeiro turno também deixou uma divisão geográfica importante.
Flávio Bolsonaro terminou à frente nas regiões Sul e Sudeste, enquanto Lula manteve uma vantagem expressiva no Nordeste. Segundo levantamento publicado pelo UOL, a diferença acumulada entre os dois nessas regiões foi significativa, com Flávio obtendo vantagem de aproximadamente 10,7 milhões de votos no Sul e Sudeste e Lula superando o adversário em cerca de 11,1 milhões no Nordeste.
Esse cenário não significa que o eleitorado regional seja homogêneo. Estados, municípios e grupos sociais apresentam comportamentos diferentes.
Mas o mapa ajuda a entender uma questão estratégica: o segundo turno não será apenas uma disputa nacional, mas uma soma de disputas regionais e locais.
Cada campanha precisa identificar onde possui margem para ampliar sua votação e onde precisa reduzir perdas.
O mercado financeiro adiciona outra camada à disputa
A eleição também passou a ser acompanhada de perto pelo mercado financeiro.
O comportamento da Bolsa e do câmbio após o primeiro turno mostrou como investidores estão incorporando as novas informações políticas aos preços dos ativos. Isso não representa uma previsão do resultado eleitoral. É, antes, uma reação às expectativas sobre possíveis políticas econômicas futuras.
Para investidores, empresas e empresários, os principais pontos de atenção são conhecidos: política fiscal, trajetória da dívida pública, juros, inflação, investimentos, tributação e ambiente regulatório.
Por isso, o segundo turno terá também uma dimensão econômica.
À medida que as campanhas apresentarem suas propostas, o mercado poderá reagir não apenas às pesquisas, mas à percepção sobre a viabilidade das medidas e sobre a capacidade de cada eventual governo de construir maioria no Congresso.
A disputa pela comunicação
Existe ainda uma mudança importante na comunicação eleitoral.
Com apenas dois candidatos, a campanha tende a abandonar parte da lógica de diferenciação utilizada no primeiro turno e concentrar esforços em três objetivos: consolidar a própria base, reduzir a rejeição e conquistar o eleitor indeciso ou menos alinhado.
Isso explica por que debates, entrevistas, propaganda eleitoral e redes sociais ganham peso adicional.
A comunicação do segundo turno precisa falar simultaneamente com públicos diferentes. O eleitor que já decidiu precisa ser mantido, enquanto aquele que votou em outro candidato precisa encontrar alguma razão para migrar.
Nesse ambiente, ataques podem mobilizar bases, mas propostas econômicas, sociais e administrativas também ganham importância porque o eleitor passa a comparar diretamente duas alternativas.
As pesquisas terão uma nova função
As primeiras pesquisas específicas do segundo turno começam a ser divulgadas nesta semana. Datafolha, PoderData e AtlasIntel já possuem levantamentos registrados para os próximos dias.
O primeiro Datafolha divulgado após a votação deve ser especialmente observado porque será o primeiro levantamento realizado depois de conhecido o resultado real das urnas.
Isso permite comparar duas fotografias diferentes: a intenção de voto medida antes do primeiro turno e o comportamento declarado pelo eleitor depois de efetivamente votar.
Ainda assim, uma pesquisa não deve ser interpretada como resultado eleitoral antecipado. Margem de erro, período de coleta, metodologia e composição da amostra precisam fazer parte da leitura.
O que realmente pode definir o segundo turno
O cenário permite identificar alguns fatores objetivos que serão importantes até 25 de outubro.
Transferência de votos: para onde irão os eleitores dos candidatos eliminados?
Rejeição: qual campanha conseguirá reduzir a resistência entre eleitores que não pertencem à sua base?
Alianças: quais apoios serão formalizados e, principalmente, terão capacidade de produzir votos?
Regiões: onde cada candidato possui espaço para crescer?
Economia: quais propostas serão apresentadas para juros, inflação, contas públicas, emprego e crescimento?
Abstenção: quantos eleitores que votaram no primeiro turno voltarão às urnas?
Esses fatores não funcionam isoladamente. Eles se combinam durante uma campanha curta e podem alterar o comportamento de grupos específicos do eleitorado.
A análise da Redação Caminho ao Capital
O segundo turno de 2026 começa com uma característica que torna qualquer leitura simplista insuficiente: os dois candidatos carregam bases muito próximas em tamanho, mas possuem mapas eleitorais e alianças diferentes.
O resultado do primeiro turno não determina o segundo. Da mesma forma, uma pesquisa isolada não determina o comportamento das urnas.
O que existe neste momento é uma disputa aberta em termos de estratégia: cada campanha precisa transformar sua votação já conquistada em uma coalizão eleitoral mais ampla.
E esse talvez seja o ponto central desta segunda etapa.
Não basta manter quem já está convencido. Será necessário dialogar com quem votou em outra candidatura, com quem ainda não definiu sua escolha e com quem pode simplesmente optar por não participar da decisão.
Para o eleitor, a segunda etapa também muda a natureza da escolha. Com apenas dois nomes na urna, torna-se ainda mais importante comparar propostas, histórico, alianças, prioridades econômicas e capacidade de implementação, separando fatos documentados de declarações de campanha.
Até 25 de outubro, o principal indicador não será apenas quem aparece à frente nas pesquisas. Será a capacidade de cada candidatura de ampliar sua coalizão eleitoral sem perder a própria base.
Produção: Redação Caminho ao Capital
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, Datafolha, UOL, Nexo Jornal, CNN Brasil e Agência Brasil.