Direita avança nas urnas e Bolsa reage: mercado brasileiro reprecifica cenário econômico após primeiro turno

Política

Resultado da apuração, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, provocou forte alta das ações brasileiras, queda do dólar e recuo dos juros futuros

O mercado financeiro brasileiro reagiu de forma expressiva ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Com a apuração concluída, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. No primeiro pregão após a votação, o Ibovespa disparou 7,70% e fechou aos 206.911 pontos, superando pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos.

A reação foi acompanhada por uma forte valorização do real. O dólar comercial caiu 4,12% e terminou o dia próximo de R$ 5, enquanto as taxas dos contratos de juros futuros recuaram de forma acentuada. A combinação dos três movimentos, Bolsa em alta, dólar em queda e juros futuros menores, mostra que o resultado eleitoral alterou de maneira significativa as expectativas dos investidores sobre o ambiente econômico brasileiro.

O que o mercado enxergou no resultado

A reação positiva não ocorreu simplesmente porque um candidato de direita terminou o primeiro turno na liderança. O principal fator apontado por analistas foi a mudança na percepção sobre a política econômica que poderia prevalecer a partir de 2027.

Investidores passaram a atribuir maior probabilidade a uma agenda associada a controle de gastos, reformas, privatizações e maior participação do setor privado. A expectativa de uma política fiscal considerada mais restritiva reduz, em tese, o prêmio de risco exigido pelos investidores e pode abrir espaço para uma trajetória de juros mais favorável no futuro.

Essa expectativa apareceu imediatamente nos preços dos ativos.

Os contratos de DI, que refletem as expectativas para os juros, chegaram a apresentar quedas próximas de 100 pontos-base nos vencimentos mais longos. É uma movimentação relevante porque justamente os contratos mais longos são mais sensíveis às expectativas sobre inflação, dívida pública e política fiscal.

Ações que dependem dos juros foram as maiores beneficiadas

A mudança nas expectativas teve impacto particularmente forte sobre empresas mais sensíveis ao custo do crédito.

O Magazine Luiza chegou a subir mais de 26%, enquanto BTG Pactual avançou mais de 22%, B3 ganhou 22,63%, C&A subiu mais de 20% e Cyrela também registrou valorização superior a 20% durante o pregão. Grandes bancos, como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil, também tiveram fortes altas.

Existe uma lógica econômica por trás desse movimento.

Varejistas e construtoras dependem, em diferentes graus, de crédito e financiamento. Quando o mercado passa a projetar juros menores no futuro, o valor presente dos resultados dessas empresas tende a aumentar e suas ações podem ser reavaliadas.

No setor financeiro, uma melhora na percepção sobre a economia doméstica também pode favorecer expectativas de expansão do mercado de capitais, crédito e atividade econômica.

O Congresso também entrou na conta

Outro elemento considerado pelos investidores foi a composição do novo Congresso.

O resultado das eleições legislativas reforçou a presença de partidos de direita e centro-direita, o que foi interpretado por parte do mercado como potencialmente favorável à aprovação de medidas econômicas associadas a uma agenda mais liberal e de controle das despesas.

Essa questão é importante porque o presidente da República não executa sozinho sua política econômica.

Mudanças tributárias, reformas estruturais, privatizações e alterações relevantes no orçamento dependem, em diferentes graus, do Congresso Nacional.

Por isso, o mercado não está olhando apenas para quem terminou o primeiro turno em primeiro lugar. Está avaliando também qual será a capacidade de articulação política do próximo governo.

Nem todas as empresas ganharam

A valorização da Bolsa foi ampla, mas não uniforme.

Empresas exportadoras foram prejudicadas pela forte queda do dólar. A Suzano chegou a recuar mais de 6%, enquanto a Embraer também registrou queda durante o pregão.

Isso acontece porque uma parcela importante das receitas dessas companhias é obtida em moeda estrangeira. Quando o dólar cai, o valor convertido para reais também diminui, o que pode afetar as expectativas sobre os resultados.

O movimento mostra que o mercado não reagiu simplesmente “comprando Bolsa”. Os investidores fizeram uma rotação entre setores, favorecendo empresas mais expostas à economia doméstica e penalizando algumas companhias beneficiadas por um real mais fraco.

O mercado está antecipando 2027

A principal característica do pregão desta segunda-feira foi a velocidade da reprecificação.

A economia brasileira não mudou estruturalmente de domingo para segunda-feira. Empresas não aumentaram seus lucros em 20%, a dívida pública não desapareceu e os juros ainda não foram reduzidos.

O que mudou foi a percepção sobre o futuro.

O mercado financeiro trabalha permanentemente com expectativas. Quando uma informação relevante altera a probabilidade atribuída a determinado cenário, os preços podem se movimentar antes que a mudança econômica efetivamente aconteça.

Foi o que ocorreu após o primeiro turno.

A possibilidade de um governo com uma orientação econômica diferente daquela precificada anteriormente fez investidores recalcularem o risco e o potencial de retorno dos ativos brasileiros.

A reação ainda precisa ser confirmada

Apesar da forte alta, o mercado agora entra em uma nova etapa.

O segundo turno será realizado em 25 de outubro, e até lá os investidores deverão acompanhar as alianças políticas, as propostas econômicas dos candidatos, os nomes cogitados para a equipe econômica e a capacidade de articulação com o Congresso.

A reação desta segunda-feira, portanto, não representa uma garantia de continuidade da alta.

Ela representa uma fotografia das expectativas do mercado após o resultado do primeiro turno.

Quanto mais concretas forem as propostas econômicas apresentadas durante o segundo turno, maior será a capacidade dos investidores de avaliar se o cenário precificado nos ativos brasileiros pode se sustentar.

Por enquanto, a mensagem dos mercados foi clara: a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e a nova composição política produziram uma mudança positiva na percepção dos investidores sobre os ativos brasileiros, especialmente entre empresas mais sensíveis aos juros e à economia doméstica.

A partir de agora, porém, a Bolsa terá de transformar expectativa em fundamentos. O mercado continuará avaliando se as propostas apresentadas durante a campanha podem efetivamente resultar em equilíbrio fiscal, menor prêmio de risco, juros mais baixos e um ambiente mais favorável ao investimento privado.

Produção: Redação Caminho ao Capital

Fontes: Reuters, B3, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, CNN Brasil e InfoMoney.

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