Comerciantes, ambulantes, food trucks, expositores e prestadores de serviços haviam se preparado para o último dia do evento; nova data poderá ajudar a reduzir parte das perdas
O adiamento do show de Maiara & Maraisa, que encerraria neste sábado (19) a programação do Marília Rodeo Music e do 1º Agro Food Show, não representa apenas uma mudança na agenda cultural de Marília. A decisão também abre uma discussão sobre os efeitos econômicos provocados pela suspensão de uma noite de evento que já tinha uma cadeia inteira preparada para funcionar.
A Prefeitura de Marília e a Mega Eventos comunicaram o adiamento alegando a necessidade de preservar a segurança do público e das equipes. A nova data ainda será anunciada, e os ingressos já adquiridos permanecerão válidos.
O problema é que, enquanto o ingresso pode ser utilizado posteriormente, nem todos os custos envolvidos na operação de um evento conseguem simplesmente ser transferidos para uma nova data.
Quem estava preparado para vender neste sábado?
Uma grande festa movimenta muito mais dinheiro do que aquele gasto dentro da arena.
Para o último dia do evento, havia uma cadeia formada por food trucks, vendedores ambulantes, comerciantes, expositores, equipes de alimentação, trabalhadores temporários, fornecedores, estacionamentos, motoristas, profissionais de segurança, limpeza, montagem e diversos prestadores de serviços.
A própria Prefeitura havia apresentado o Agro Food Show como uma plataforma voltada ao agronegócio, à indústria alimentícia, ao comércio, aos serviços, aos artesãos e aos food trucks, destacando justamente a capacidade do evento de movimentar a economia local e regional.
Para muitos desses trabalhadores, portanto, o sábado não era apenas mais uma data no calendário.
Era uma data de faturamento previamente planejada.
Mercadorias podem ter sido compradas antecipadamente. Equipes podem ter sido contratadas. Veículos podem ter sido deslocados. Alimentos podem ter sido preparados. Estruturas podem ter sido montadas. Funcionários podem ter sido escalados.
Quando o evento é interrompido, esses custos continuam existindo.
O prejuízo já pode ser calculado?
Ainda não.
Até o momento, não há informação oficial que permita afirmar quanto os comerciantes, trabalhadores ou fornecedores perderam com o adiamento.
E essa diferença é importante.
O prejuízo efetivo dependerá de diversos fatores: quantidade de mercadoria adquirida, possibilidade de reaproveitamento dos produtos, custos de mão de obra, taxas pagas para participação, transporte, hospedagem, estrutura, alimentação e, principalmente, da capacidade de transferência dessas operações para a nova data.
Por isso, qualquer número apresentado neste momento como “prejuízo do evento” seria uma estimativa, e não um dado oficial.
O que já é possível afirmar é que existe uma exposição econômica para trabalhadores e empresas que tinham o sábado como uma oportunidade de venda.
O caso dos alimentos merece atenção especial
Entre os diferentes segmentos envolvidos, alimentação e bebidas estão entre aqueles que podem enfrentar maior dificuldade para absorver o impacto de um adiamento.
Produtos perecíveis, insumos preparados para o atendimento do público e mercadorias compradas especificamente para o evento possuem uma característica diferente de produtos que podem simplesmente voltar ao estoque.
Um vendedor que comprou determinado volume de alimentos esperando atender milhares de pessoas durante uma noite precisa agora avaliar o que pode ser armazenado, o que pode ser utilizado em outros eventos e o que eventualmente será perdido.
É justamente nesse ponto que a discussão econômica deixa de ser abstrata e chega ao trabalhador que estava atrás do balcão.
Nova data pode reduzir parte do impacto
A manutenção dos ingressos para a nova data é uma medida que preserva parte da demanda originalmente criada para o evento. A Prefeitura e a organização informaram que os ingressos adquiridos continuarão válidos.
Isso significa que uma parcela do público originalmente previsto poderá permanecer vinculada à programação.
Para comerciantes e prestadores de serviços, porém, será importante saber como essa nova data será estruturada.
Se a programação for mantida com condições semelhantes, os trabalhadores que já estavam preparados poderão ter uma nova oportunidade de comercialização.
Nesse cenário, o adiamento deixa de representar somente uma perda e passa a ser também uma questão de reorganização da atividade econômica.
O que Prefeitura e organização podem fazer?
A discussão não precisa necessariamente partir da ideia de uma indenização automática.
Existem outras formas de buscar uma solução para quem foi diretamente afetado.
A primeira seria estabelecer um canal formal de atendimento aos expositores, ambulantes, food trucks e demais trabalhadores que participaram da programação.
Esse levantamento poderia identificar:
- mercadorias adquiridas especificamente para o evento;
- produtos perecíveis e eventuais perdas;
- custos de montagem e desmontagem;
- contratação de funcionários;
- transporte e logística;
- hospedagem;
- taxas e valores pagos para participação;
- estruturas já contratadas;
- necessidade de remarcação de fornecedores.
A partir desse diagnóstico, Prefeitura e organização poderiam avaliar medidas de apoio dentro das responsabilidades de cada parte e, principalmente, garantir que a nova data seja comunicada com antecedência suficiente para permitir novo planejamento comercial.
O papel do poder público também passa pela mediação
Como o evento envolve diferentes agentes privados e públicos, é importante separar responsabilidades.
A Prefeitura não necessariamente responde por todos os prejuízos decorrentes do adiamento. Contratos entre comerciantes, fornecedores, trabalhadores e organização precisam ser analisados individualmente.
Por outro lado, o município possui capacidade de articulação institucional e diálogo com os setores envolvidos, especialmente porque apresentou o Agro Food Show como uma iniciativa destinada também a fomentar negócios, comércio, serviços e a economia local.
Essa articulação pode ser importante para evitar que pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos sejam os mais prejudicados pela mudança.
Um evento movimenta dinheiro antes mesmo de o público chegar
A principal lição econômica do episódio está justamente aqui.
Quando milhares de pessoas são esperadas em uma cidade, o dinheiro começa a circular antes da abertura dos portões.
Há compras de mercadorias, contratação de funcionários, deslocamento de fornecedores, abastecimento de veículos, preparação de restaurantes, reservas de hospedagem, contratação de transporte, montagem de estruturas e aquisição de insumos.
Durante o evento, entram em cena restaurantes, bares, postos de combustíveis, estacionamentos, aplicativos de transporte, hotéis, supermercados, comércio e uma extensa cadeia de serviços.
A própria Prefeitura havia destacado, antes da realização do evento, que a proposta era justamente criar oportunidades para empresas e produtores e movimentar setores como hotelaria, bares, restaurantes, comércio, artesanato e food trucks.
Por isso, quando uma noite inteira é retirada do calendário, não é somente um show que deixa de acontecer. É uma série de transações econômicas que também precisa ser reorganizada.
O precedente dos dois primeiros dias
O impacto potencial ganha ainda mais relevância diante do desempenho registrado nas primeiras noites.
A abertura do Marília Rodeo Music, na quinta-feira (17), reuniu aproximadamente 17 mil pessoas, segundo informações divulgadas após o evento. A programação também envolveu rodeio e atividades do Agro Food Show.
Na sexta-feira, a programação continuou com apresentações musicais, rodeio e atividades comerciais.
Ou seja, a estrutura econômica já estava em funcionamento quando a decisão pelo adiamento do sábado foi anunciada.
O desafio agora é transformar adiamento em reorganização
O adiamento foi uma decisão relacionada à segurança, e essa justificativa foi apresentada oficialmente pela Prefeitura e pela organização.
A partir de agora, porém, existe uma segunda questão a ser enfrentada: como administrar o impacto econômico provocado pela mudança de data?
A resposta passa pela definição rápida da nova data, pela comunicação clara com o público e, principalmente, pelo diálogo com aqueles que estavam trabalhando para que a terceira noite acontecesse.
Para o público, o principal compromisso é saber quando poderá assistir ao show.
Para quem vendeu, produziu, transportou, montou e trabalhou no evento, a questão é um pouco maior:
como recuperar a oportunidade de negócio que estava prevista para este sábado?
A nova data poderá ser justamente o instrumento para isso.
O próximo capítulo do Marília Rodeo Music, portanto, não será apenas sobre a volta de Maiara & Maraisa ao palco. Será também sobre a capacidade de reorganizar uma cadeia econômica que já estava preparada para receber mais uma noite de público e consumo em Marília.
Por Redação Caminho ao Capital